25 de maio de 2024

Brazil 24 Horas

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Projeto Cola: A Ambiciosa Jornada Rumo ao Centro da Terra

Cientistas têm estudado as camadas mais profundas do planeta. Para isso, têm realizado escavações em diferentes partes do Globo Terrestre.
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Há décadas, os cientistas têm estudado as camadas mais profundas do planeta. Para isso, têm realizado escavações em diferentes partes do Globo Terrestre. Durante a Guerra Fria, as duas maiores potências mundiais da época, Estados Unidos e União Soviética, criaram projetos ambiciosos para ver quem chegava primeiro ao local mais profundo da Terra. O objetivo de ambas as nações era alcançar o manto, que, em teoria, pode chegar a mais de 2.000 km de espessura, ou ainda alcançar camadas ainda mais inferiores e profundas que precedem o núcleo da Terra. No entanto, o que mais estava em jogo era, de fato, as capacidades tecnológicas que cada país já possuía e queria mostrar ao resto do mundo.

Os russos escolheram o local perfeito para perfurar, uma região remota inserida no Círculo Polar Ártico chamada Península de Cola. No período do verão, a região apresenta seu lado mais belo, uma vez que revela selvas, tundra, lagos, bem como é coberta por uma bruma que, apesar de quase opaca, oferece um cenário fotograficamente magnífico. Como comparou o articulista Marquezine para a BBC, a região é típica de um conto de fadas. Em meio a essa beleza criada pela mãe natureza, a presença humana não poderia deixar de intervir para realizar suas mais loucas experiências, e foi justamente isso que os soviéticos da época fizeram.

Batizado de “Poço Artesiano Super Profundo de Cola”, o projeto teve início em 1970 e prosseguiu pelos 24 anos seguintes até a conclusão, ou melhor, a desistência da empreitada. A super broca não passou dos 40.230 amperes, ou 12,2 km. Para efeitos de comparação, a sonda Voyager 1, lançada em 1977, chegou ao limite do sistema solar há mais de 16 bilhões de quilômetros de distância com apenas 26 anos de viagem. Com isso, podemos ver o quão difícil é penetrar nas camadas mais duras e profundas do planeta, que é uma região menos conhecida do que o próprio espaço.

Os americanos conseguiram, entre as décadas de 50 e 60, perfurar o solo da Califórnia, mas não conseguiram passar dos 185 metros de profundidade. Posteriormente, fizeram outro buraco no território da Costa Rica, de 157 metros, ou meros um quilômetro e meio. Mesmo assim, supõe-se que esse buraco tenha se aproximado mais do manto, uma vez que a crosta terrestre naquela região é mais fina do que na Península de Cola. Estima-se que, na Costa Rica, ela tenha cerca de 5 km de espessura, enquanto em Cola seria algo em torno de 18,3 km.

O segredo utilizado pelos russos foi, a princípio, o uso de uma broca resistente e que funcionava em baixa velocidade, a fim de não desgastá-la tão rapidamente. Além disso, o Cola consiste em vários furos ramificados a partir de um furo central. O buraco mais profundo é chamado de SG3. Embora tenha apenas 9 polegadas, ou quase 23 cm, de diâmetro, estende-se por impressionantes 12 km. Para atender aos anseios científicos de fornecer uma visão quase contínua do perfil da crosta, os soviéticos até desenvolveram instrumentos para fazer medições físicas diretas no interior do poço. O aparato de perfuração permitia, assim, uma maior integridade de medição, uma vez que as amostras de rocha se deformavam sob sua incrível pressão quando trazidas do objetivo principal. O projeto produziu enormes quantidades de dados geológicos, muitos dos quais elucidaram o que poucos sabemos sobre nosso planeta.

Por meio do projeto Cola, os cientistas tiveram que repensar a respeito da camada de basalto, pelo menos acerca da profundidade em que ela se encontra. Antes, estimava-se que poderia haver uma transição do granito para o basalto entre três e seis quilômetros de profundidade. O que foi comprovado é que a camada de granito se estendia além dos 12 km e que os resultados da reflexão sísmica ocorreram devido a uma mudança metamórfica na rocha, ou seja, por causa do intenso calor e pressão, e não por uma mudança no tipo de rocha como eles priorizaram. No entanto, essa não foi a descoberta mais importante para os cientistas, pelo menos não para os biólogos. Isso se deve principalmente à detecção de atividade biológica em rochas com mais de 2 bilhões de anos. A evidência mais clara de vida veio na forma de fósseis microscópicos e vestígios de compostos orgânicos que permaneceram surpreendentemente intactos, apesar das pressões e temperaturas extremas da rocha circundante. Para esses cientistas, foi praticamente o mesmo que a NASA encontrar micróbios em Marte nos dias de hoje.

O projeto Cola precisou ser abandonado em 1994, após atingirem os 12,2 km, devido a alguns fatores. Primeiro, a temperatura ambiente de 100 graus Celsius subiu para 180 graus, ou seja, quase o dobro, e isso poderia derreter os instrumentos, especialmente os sensores. O segundo motivo foi a inesperada diminuição na densidade da rocha após os primeiros 14.800 pés. Além desse ponto, a rocha tinha maior porosidade e permeabilidade, que, combinadas com as altas temperaturas, faziam com que as rochas se comportassem mais como um plástico do que como um sólido, impossibilitando o trabalho da broca. Por último, veio a falta de dinheiro, uma vez que, no início da década de 90, houve o colapso do regime socialista soviético. Toda a estrutura do projeto Cola foi praticamente abandonada.

Imagem: Caniceus


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